Texto extraído do Livro de Aurélio Porto Jesuítas do Sul do Brasil "História das Missões Orientais do Uruguai"
Vilmar Person, membro da Academia de Letras dos Municipios do Rio Grande do Sul -ALMURS, cadeira 293
6- O desbarato de Mbororé.
No interregno
que vai da ação de Caaçapá-guaçu ao trágico desbarato de Mbororé,[1]
isto é, de princípios de 1639 a 1641, não consta da documentação
jesuítico—espanhola a entrada de qualquer bandeira regular em território
rio-grandense.
Outros
acontecimentos de vulto, ao Norte, desviavam, por de terminações de alto
patriotismo, a belicosidade piratiningana. António Raposo Tavares, à frente de
algumas centenas de paulistas, como anteriormente D. Francisco de Rendon, saía
de São Paulo com fortes contingentes e, em janeiro de 1640, tomava parte
destacada nos combates contra o batavo que dominava o Nordeste.
No mesmo ano
aportava ao Rio de Janeiro, procedente de Roma, o Padre Procurador Diaz Tano
que ali fazia promulgar o breve do Papa, excomungando os predadores de índios.
Determinou isto uma série de distúrbios que teria tido consequências
gravíssimas, pondo em perigo a vida dos religiosos, se o governador e
autoridades não acudissem com força armada, dissolvendo a multidão, em socorro
aos mesmos. Em São Paulo, onde se soube dos acontecimentos do Rio, a Câmara,
confraternizando com o povo, assumiu a direção da revolta e, indo ao Colégio
dos Jesuítas, aí os intimou «despejassem a vila e capitania», sob pena de
apelarem para a violência. Isto ocorria no mês (de julho de, 1640.[2])
Logo após tão
graves distúrbios que afetavam a vida da Companhia naquelas Capitanias, soube o
P. Tano, no Rio, onde ficou até novembro, que os paulistas novamente se
aprestavam para dar sobre as reduções, motivo por que apressou o regresso a
Buenos Aires a fim de providenciar com tempo quanto à resistência que era mister
lhes opor.[3]
Chegando ainda
a tempo à Capital do Prata, fez remeter com urgência ao exército que se
organizava nas reduções, sob o comando de D. Inácio Abiaru, capitão-general dos
índios, e assistência técnico-militar do Irmão Domingos de Torres, grande
quantidade de mosquetes e arcabuzes, e larga cópia de munições de guerra.
Constituía-se assim formidável exército forte de 4.000 índios, dos quais mais
de 300 estavam armados de arcabuzes, contando até com peças de artilharia
feitas de bambu recoberto de couro.
Dizem os
documentos jesuíticos que a bandeira se compunha de “400 portugueses com armas
de fogo e muitos mestiços, mulatos e negros, além de 2.500 tupis flecheiros”[4],
convindo, porém, ressaltar que Teschauer, citando outras fontes, diz que “os mamalucos
(eram) em número de 500 a 600 com mais de 4.000 índios tupis em 700 canoas que
tinham preparado nas margens dos rios com as quais ocuparam o rio Acarágua,
afluente do Uruguai, enquanto suas tropas entravam no povo ermo[5]
Confrontando
os vários relatos de origem jesuítica, referentes a essa página do bandeirismo
paulista e os documentos do acervo arquival que nos fornecem Inventários e
Testamentos, não se torna difícil determinar o trajeto da bandeira de
Mbororé até atingir o rio em que teve lugar o choque sangrento. Já de volta do
rio Uruguai, em setembro de 1641, procede-se ao inventário de Sebastião
Gonçalves num “sertão do Rio Grande, dos Ganaiás”. Eram os guaranás ou guaianás[6]
mais conhecidos pela designação de ibirajaras, segundo nossa classificação. [7]
Diz o Padre Tano, na carta citada, ”que com os paulistas vinham também muitos
guananazes, que haviam vencido pelo caminho”, e que, de volta, o “inimigo
retirou-se para as aldeias dos infiéis que havia cativado.[8]
Ranchearam-se “nas cabeceiras do Apiterebi”, “depois de passar pelo Tebiquari”,
diz na Ânua de 1641 o Padre Lupércio.[9]
A determinação
do rio Apiterebi dos Jesuítas suscitou larga controvérsia entre os demarcadores
de 1750, chegando-se finalmente, à conclusão, por todas aceita, de que se
tratava do antigo Peperi-guaçu, dos Jesuítas, designação que foi mais tarde
deslocada para um afluente mais oriental da margem direita do Uruguai.
Refere a Ânua
do P. Ruyer que um tupi preso pelos índios informara, depois da derrota dos
paulistas, em Acarágua, que o chefe da bandeira determinara, «logo após a
Páscoa, partir do rio Acarágua, tomando seu curso pelas matas para sair num
arroio que está Uruguai acima chamado Guarumbaca[10]
e aí dividirem-se, indo uns até o Iguaçu, enquanto outros passariam pelo salto
do rio Uruguai, indo até Santa Teresa para explorar as taperas de Jesus-Maria,
e dali ao Caamo e Caágua e, finalmente, os outros, pelo Uruguai acima iriam
assolar as aldeias dos in fiéis.[11]Depreende-se
dessas informações que a bandeira havia tomado o caminho do Iguaçu (sertão do
Rio Grande) e daí reflexionado para a margem direita do Uruguai, passando pelas
pontas do Apiterebi, até o Mbororé, o que confirma o trajeto apontado pelo Dr.
Alfredo Ellis. Na volta, porém, alguns elementos se teriam internado pelo
Alto-Uruguai, no sertão rio-grandense.
Integravam a
bandeira elementos de escol da gente piratiningana. O inventário de Sebastião
Gonçalves e as referências jesuíticas dão-lhe para cabo principal o capitão
Jeronimo Pedroso de Barros, ocupando também posto de destaque o capitão Manuel
Peres, que assina a carta referida na Ânua do P. Ruyer. Conhecem-se mais:
capitão António Pedroso de Barros, irmão do cabo, capitão António da Cunha Gago
(o gambeta), Baltasar Gonçalves, Bartolomeu Álvares, Sebastião Gonçalves (o
falecido), Antônio Rodrigues, Clemente Álvares, Simão Borges, João Leite,
Matias Cardoso, Pero Nunes Dias, Domingos Furtado, Miguel Lopes, Mateus
Álvares, Pero Lourenço, Amador Lourenço, João Pires Monteiro, Pedro Cabral,
Domingos Pires Valadares, Sebastião Pedroso Baião, António de Aguiar, António
Fernandes Sarzedas, António Carvalhais e João de Pina.[12] A estes nomes se podem acrescentar os
constantes do inventário de Luís Dias, feito no sertão a 28 de Dezembro de
1641, e que, além do morto, são os seguintes: Vicente Bicudo, Francisco
Correia, António Gil, Se bastião Gil, Pedro Furtado, Baptista, António Lopes Perestrelo,
Francisco Barreto e Antonio Agostim[13]
A bandeira
deveria ter saído do povoado em fins do segundo quartel do ano de 1640, dela
tendo notícia o P. Diaz Taño que, em novembro, apressou sua partida do Rio para
Buenos Aires, temendo não chegar a tempo de dar junto aos Padres as
providências que o acontecimento requeria.
Três a quatro
meses deveria a força de Jerónimo Pedroso ter gasto até chegar à margem direita
do Uruguai, onde acampou um pouco acima da foz do rio Acarágua. Além da preia
de índios, que era seu principal escopo, dois outros motivos determinavam sua
ida às doutrinas jesuíticas: saber de Pascoal Leite Pais e mais companheiros
presos em Caaçapá-guaçu, de que não se tinha notícia, “nem por mar nem por
terra se são vivos ou mortos”, os quais “em sua mor parte são casados e estão
carregados de filhos e filhas, hoje em grande desamparo, clamando e pedindo
justiça a Deus contra vossas paternidades, pelo desamparo e miséria em que se
vêem; e assim como da parte do P. Vicente Rodrigues, da Companhia de Jesus, me
pediram os interessados chegasse aqui para saber deles.”[14]
Outro motivo, o natural revide contra os promotores das penalidades cominadas
no breve papal que o P. Diaz Tano fizera conhecer e que motivara sérios
distúrbios contra os Jesuítas no Rio e São Paulo.
Farta foi a
presa que os sertões percorridos, principalmente em índios infiéis, ofereceram
à leva paulista. Manuel Peres a acusa em sua carta: “Não imaginem vossas
paternidades que viemos aqui com o engodo de vossos índios, que muito bem sabem
vossas paternidades; o muito gentio que havia por este rio já o enviei para
diante” ... E além da grande chusma de cativos que estariam contidos nas
paliçadas, ou a caminho de São Paulo, um número considerável de ibirajaras
íguaianás acompanhavam livremente os vencedores de suas aldeias localizadas nas
pontas do Apiterebi engrossando a coluna bandeirante.
Em dezembro de
1640 haviam já erguido seu real à margem direita do Uruguai. Uma grande cheia
que, neste mês, engrossou consideravelmente o rio, fez baixar algumas balsas
acabadas de construir, grande quantidade de flecharia e outros petrechos “pelo
que viram os Padres que não era obra somente de infiéis, mas sim de gente mais
ladina e perita do que estes.” [15]
Era chegado o momento de agir, pois isto confirmava a notícia que o Padre
Procurador trouxera do Rio de Janeiro e levava os Jesuítas à convicção de que o
inimigo estava próximo e não tardaria a acometer as reduções. Em 8 de Janeiro,
o Provincial Padre Ruyer convocou 2.000 índios das reduções, dando ordem a
todos os Povos do Uruguai fizessem descer os seus contingentes com brevidade.
Assumiu o comando geral dos índios o capitão-general D. Inácio Abiaru, e o
velho D. Nicolau Nenguiru, antigo cabo de guerra cristão, serviu com seu
conselho e experiência.
À frente dessa
força o P. Ruyer subiu até o rio Acarágua, enquanto o P. Cristóvão Altamirano,
em companhia de outros Jesuítas e índios, reconhecia a terra, indagando
notícias da bandeira. Em caminho os exploradores foram encontrando corpos de
selvagens recentemente mortos, muita flecharia, canoas e 10 ou 12 balsas, muito
bem acabadas, feitas de cana da terra que os naturais chamam taquara. Uma
escolta, que foi ao salto do Uruguai, às três horas da manhã, encontrou 16
índios fugitivos, já acossados pelos bandeirantes, que desciam o rio.
A fim de
concentrar as suas forças, resolveram os Padres aguardar no rio Acarágua a
vinda dos inimigos que se aproximavam. Organizaram-se patrulhas e sentinelas,
ergueram-se paliçadas e despacharam-se espias em todas as direções. Finalmente,
a 25 de fevereiro houve exata notícia dos paulistas. Canoas de índios que foram
rio acima, em reconhecimento, encontraram outras que desciam tripuladas por
inimigos. Fugiram, céleres, dando aviso aos Jesuítas do encontro que tiveram.
Certos da
investida, os Padres levantaram seu exército baixando a Mbororé, ponto
estratégico adredemente preparado para a resistência que se deveria fazer. E
quando a bandeira chegou à aldeia do Acarágua, cercando-a por três flancos e
enchendo o rio de canoas de guerra, não encontrou ali mais ninguém. Somente, no
rio, em 15 canoas, D. Inácio Abiaru procurou fazer uma diversão que durou duas
horas, inutilizando duas embarcações dos bandeirantes. Neste entreato
apareceram mais três companhias de mamalucos que se apresentaram para entrar em
combate, e o P. Altamirano, que dirigia a ação, resolveu retirar para Mbororé,
evitando perda inútil de combatentes.
Sábado, 7 de
março, violenta tempestade caiu sobre o arraial dos paulistas, obstando
descessem estes a enfrentar o exército missioneiro, em Mbororé. o que foi
providencial, pois só no domingo chegaram ali, vindos de todas as reduções do
Uruguai, mais 2.000 soldados, com o que se duplicou a força das reduções.
Assumira a
direção dos assuntos da guerra o P. Pedro Mola, que substituíra o P. Ruyer,
enfermo em São Nicolau, até que chegasse o P. Pedro Romero, designado para essa
direção. Entrementes, o general Abiaru havia tripulado 70 canoas de guerra em
que se contavam, além de inúmeros flecheiros, 57 soldados armados de arcabuzes.
Quarta-feira,
11 de março, o inimigo apareceu, às duas horas da tarde e, descobrindo o
casario de Mbororé, arribou à margem e se entrincheirou fortemente em uma
chácara que havia nas imediações. Resolveu o comandante do exército missioneiro
não dar trégua nem alce ao inimigo e assentou oferecer-lhe batalha
incontinenti. Em uma balsa, blindada por fortes paus, colocou uma peça de
artilharia, que deu certeiro disparo contra as canoas inimigas, enquanto os
índios impacientes para combater disparavam seus arcabuzes, prostrando logo
dois “portugueses” que estavam em uma balsa. Assim se “travou a batalha com
brava coragem de uma e outra parte”.
Neste momento
saltou em terra o capitão Jerónimo Pedroso, com 30 homens e, passando por um
arroio grande, começou a arcabuzar os índios que estavam em terra, matando três
e pondo uns 30 em fuga. Outros, porém, revidando o golpe, acometeram os
paulistas, matando um deles e quatro tupis e ferindo a muitos, com o que os
inimigos voltaram à sua paliçada. Continuava, entretanto, o choque entre as
canoas, de que os bandeirantes contavam 130, tripuladas por mais de três
centenas de homens.
Neste primeiro
dia de combate, que terminou ao cair da noite, tiveram os paulistas perda de
nove homens brancos e alguns tupis, mortos e muitos feridos.
No dia
seguinte, 12 de março, o inimigo empregou a manhã em construir uma forte
paliçada e nela se entrincheirou. Ã tarde, três mil índios missioneiros,
dirigidos pelos seus comandantes, sob a vigilância dos Padres, em silêncio,
procuraram fazer um movimento envolvente com que contavam exterminar de vez os
bandeirantes. E, quando estes se aperceberam da manobra, já sobre as suas
defesas caía uma chuva incessante de balas e flechas. Vendo-se quase cercado,
procurou o chefe da bandeira abrir uma brecha entre os atacantes e, à frente de
um forte destacamento de soldados, saiu da trincheira, empenhando-se com os
índios num combate, corpo a corpo. Mas tal era o ímpeto destes e a
superioridade numérica que, por três vezes, teve o paulista de se cobrir, retornando
à sua paliçada, de que voltava a sair para novos recontros. Três horas durou a
refrega desse dia, que terminou à noite, pela retirada do exército catecúmeno.
Na ação o capitão Jerônimo Pedroso perdera mais quatro homens brancos, além de maiores
números de tupis.
Com data de
13, remetida por um parlamentário que arvorava bandeira branca, receberam os
Padres uma carta de um dos cabos da bandeira, o capitão Manuel Peres,
constante, em tradução da Ânua do P. Ruyer e por nós retraduzida do espanhol:
“Meus Revos. P.es — Chegámos aqui onde viemos falar a V. P.es para saber dos
homens que V. P.es prenderam há anos passados, isto é, Pascoal Leite Pais e os
demais dos quais nunca tivemos notícias nem por mar nem por terra, se são vivos
ou mortos; pelo que vi anteontem vejo que V. P.es estão em pé de guerra e antes
que tivéssemos chegado já este rio estava coalhado de canoas de guerra por
ordem de V. P.es, às quais quatro moços mal intencionados, sem ordem minha,
procuraram sair de encontro, pelo que V. P.es sem nenhuma razão nem cristandade
o fizeram, que se eu viesse a fazer mal abalroara com todo o meu exército, mas
antes mandei recolher a gente toda e assim o fizeram como V. P.es bem viram por
compreender que eram religiosos e servos de Deus e nos cristãos: e, logo, rio
acima, querendo falar às canoas de V. P.es levantámos uma bandeira branca, ao
que nos responderam muitas arcabuzadas, coisa que cada vez foi de mal a pior. E
assim requeiro a V. P.es da parte de Deus e de S. M. uma e muitas vezes
descarregando minha consciência, e a de todo este real sobre V. P.es do que
possa suceder de hoje em diante, de parte a parte, pois o tem causado V. P.es,
sendo claro que não tive tal intenção e por isto deixo traslado desta mesma
carta para que em todo o tempo conste a verdade, pois não temos intenção de
fazer mal aos cristãos, pois ao que viemos não é mais do que saber de nossos
irmãos e parentes que, em sua mor parte, são ca
sados e estão
carregados de filhos e filhas, hoje em grande desamparo, clamando e pedindo
justiça a Deus contra V. P.es pelo desamparo e miséria em que se veem; e assim
como da parte do P.e Vicente Rodrigues, da Companhia de Jesus, me pediram os
interessados chegasse aqui para saber deles. E estimarei que V. P.es me façam a
caridade e mercê de nos vermos, e, principalmente, que nos digam missa, e ouçam
algumas confissões, pois estamos na santa Quaresma. Não imaginem V. P.es que
viemos aqui com o engodo de seus índios, que muito bem sabem V. P.es; o muito
gentio que havia por este rio já o enviei para diante e com que V. P.es venham
cá falar comigo verão e acharão ser tudo isto certo e verdadeiro. Eu fico
esperando a V. P.es, ou resposta, e não seja a que deu a António Raposo
Tavares, em Jesus-Maria, e V. P.es muito bem sabem o que disso resultou, o que entendo
não farão V. P.es e assim querendo V. P.es vir aqui o podem fazer
confiadamente, sem receio nenhum; eu fico esperando a V. P.es a quem Deus
guarde etc. — 13 de março de 1641 — De V. P.es servidor que suas mãos beija — O
cap. Manuel Peres.[16]
Por outras
ocasiões ainda procuraram os bandeirantes comunicar com os Padres, mas,
absolutamente, não conseguiram que suas cartas fossem respondidas. Só, mais
tarde, animoso, o P. José Doménech aproxima-se da paliçada inimiga, exprobrando
o procedimento dos paulistas e oferecendo os serviços espirituais dos Padres se
houvesse ali feridos em perigo de morte, aos quais estariam prontos a
confessar. Respondeu-lhes o comandante que havia 11 brancos gravemente feridos,
como também alguns índios.
Até 16 de
março, entre refregas contínuas e assaltos dos índios, estiveram os mamalucos
na paliçada, de que saíam para investir contra os inimigos. Retiraram daí,
sempre acossados pelos catecúmenos, construindo, mais adiante, novas
fortificações para a sua defesa. Mas os soldados de D. Inácio Abriaru não lhes
davam tréguas para cuidar de seus feridos, que eram muitos e, assim, ainda por
dois dias, mantiveram contacto com os inimigos vermelhos. Nesses recontros os
próprios chefes Nenguiru e Abiaru foram tomados pelos bandeirantes e libertados
pelos índios. No último dia, oitavo de combates contínuos, 18 de março, os
missioneiros os perseguiram das seis da manhã às três horas da tarde. Haviam
perdido mais de 60 mortos, sendo poucos os que não estivessem feridos.
A fim de
melhor se refazerem, os paulistas embrenharam-se nas matas entre o Mbororé e o
Acarágua, sem que seus perseguidores pudessem encontrá-los, nem saber o rumo
que haviam tomado. E assim passaram-se seis dias, conseguindo os fugitivos
atingir novamente as aldeias do Acarágua, onde se situaram, erguendo o seu
real.
Não
esmoreceram, porém, os Padres no intuito de se verem livres de tão terrível
inimigo. Convicto estava este de gozar alguns dias de tranquilidade, entregue a
seus deveres devocionais, pois corria a semana santificada pela morte do
Redentor. E, no Acarágua, onde os restos da bandeira destroçada se acolhera, na
quinta-feira santa, que deve ter passado a 25 de março, os paulistas estavam
ocupados “em levantar cruzes, erguer calvários, enramar arcos e preparar estações
para as solenidades da Paixão”. Jamais supuseram que em “tais dias santos”,
consagrados às cerimonias religiosas, ao culto do Senhor, pudessem cristãos
empunhar armas para verter sangue humano, principalmente religiosos de tão
austeras virtudes.
E foi
exatamente nesse dia que, tendo localizado os fugitivos, sobre eles caiu o
forte exército dos catecúmenos, sob o comando de D. Inácio Abiaru e imediata
direção dos Padres da Companhia de Jesus. Após refregas incessantes e
desesperada defesa aos mamalucos, em que perderam muitos homens, conseguiram
estes pôr-se a salvo, fugindo novamente para os matos. Domingo da páscoa, não
obstante incessantes buscas, perderam os índios o contacto com os restos da
bandeira destroçada, que já havia tomado grande distância, por ásperas
serranias e matos fechados que marginam o Uruguai. E o exército cristão voltou
às suas reduções para celebrar com Te Deum festivo e largas
manifestações de alegria a auspiciosa vitória. Isto foi a 28 de março em que
deve ter caído a páscoa de 1641.
Trágico o
retorno dos remanescentes dessa bandeira que, embrenhada pelos sertões
catarinenses só deve ter atingido o povoa do Piratiningano um ano e meio mais
tarde.
Em seu
retorno, até atingir as cabeceiras do Apiterebi, onde havia várias aldeias de
infiéis ibirajaras, segundo a documentação jesuítica, haviam sido várias vezes
assaltados pelos índios gualachos, hordas selvagens e antropófagas que
dominavam aquele sertão, vindos do Norte sob a pressão dos brancos que baixavam
do Iguaçu. E nesses recontros haviam perdido ainda alguns homens, mortos sob
cruéis atrocidades, descritas pelo P. Cristóvão Altamirano que até ali persegue
os mamalucos.
Sabedores da
derrota de Mbororé, aprestaram os paulistas, em sua cidade, uma nova bandeira,
que dali saiu, em 1641, em socorro dos bandeirantes que acossados pelos índios
se retiravam para o Apiterebi, ali encontrando os remanescentes da bandeira
destroçada. Esse socorro não é referido pela documentação portuguesa, constando
a notícia, como veremos, da delação de serviços dos tapes, etc, do P. Bernardo
Nusdorffer, (V. Vol. seguinte, cap. I, 2, nota ano de 1641) : “No mesmo ano
(1641) alguns derrotados que iam fugindo encontraram com socorro novo que vinha
do Brasil e juntos voltaram por outra parte e com outro modo a tentar fortuna:
fizeram dois fortes, no rio Uruguai, um chamado Tobati (Rio Comandai, grifo meu) e outro Apiterebi, para
sair daí, fazer guerra às reduções e cativar índios. Descobriram os espias dos
índios o seu intento, saíram logo em seguida e acometendo o primeiro forte, os
destroçaram, matando muitos e libertando os cativos que já tinham.
Deram também
sobre o segundo forte e os obrigaram a evacuá-lo, com tudo quanto tinham de
provisões, munições, víveres e cativos. Quem comandava esse novo reforço que
veio em socorro dos destroçados de Mbororé? A documentação portuguesa nada nos
diz a respeito. Meses depois do assédio de Mbororé, diz o Irmão Simão Méndez,
confirmado pelo P. Diaz Tano[17], mandaram os Padres, sabendo que os paulistas
tinham recebido reforço, uma força armada de 150 catecúmenos sob o comando do
capitão-general Inácio Abiaru, para novamente hostilizá-los. Depois de muitos
dias de marcha encontraram 10 “portugueses” que procuravam fazer um forte nas
imediações das reduções. Batidos pela força, dispersaram-se, com morte de
cinco, tendo sido libertados 45 infiéis que haviam capturado. Algum tempo
depois, outros contingentes de soldados das reduções acharam rancheados em uma
paliçada alguns paulistas que foram obrigados a fugir.
Um
destacamento de bandeirantes que saiu à preia de infiéis encontrou pelas
alturas do Tebiquari um troço de índios cristãos que, quando da destruição de
Santa Teresa, se teria retirado para as imediações desse rio. Depois do assalto
que colheu alguns, outros se entregaram espontaneamente, com o intuito de mais
tarde promoverem uma revolta entre os prisioneiros. A noite levaram a efeito o
intento, destroçando-os. Outros “10 portugueses de outra tropa, que eram os
melhores soldados de Jerónimo Pedroso”[18]
tiveram igual destino, muitos deles morrendo, atacados pelos índios.
Além de todas
essas lutas ainda se referem os documentos conhecidos à investida de grande
quantidade de tigres que assolavam os acampamentos, às intempéries terríveis da
estação hibernal e à falta de mantimentos que originou grandes privações, fome
e doenças.
Diz o
Provincial P. Francisco Lupércio Zurbano, na Ânua referida que, segundo pessoas
vindas do Brasil, as baixas dos paulistas orçavam por 120 brancos, “parte
feridos e mortos na batalha, parte mortos pelos índios infiéis, e outra pelos
tigres e intempéries”, que os assolaram no retorno ao povoado.
Os restos
desta bandeira devem ter chegado em agosto de 1642 a São Paulo, data em que foi
iniciado o inventário de Sebastião Gonçalves.
[1]
Mbororé, pequeno arroio da margem direita do Uruguai é hoje conhecido na
cartografia argentina pelo designativo de Arroio Nonje. V. mapa — Misiones guaraníticas.
[2]
Carta do Padre Francisco Diaz Tano. datada de 9 de novembro de 1641. Confirma-o
o Irmão Simón Méndez que estava também no Rio de Janeiro, em carta de 23. ao
Irmão Diogo de Molina, dizendo que ali "souberam que se aprestava uma
bandeira de 400 paulistas para dar sobre as reduções". Pastells. 11-60,
62.
[3].
Pastells. 11-Serafim Leite. Hist. da Comp. de Jesus no Brasil, VI, 253 ss.60,
62.
[4]
Padre Tano. Carta citada. Pastells — II. 62.
[5]
Teschauer. Hist. I, 204. Observa que estes números, diferentes dos indicados
por Lozano, apoiam-se nos autos".
[6]
António Serrano. Etnografia de la antigua provinda dei Uru guai. Paraná 1936-39
e seg.
[7] V.
Mapa etnográfico.
[8]
Carta do Padre Tano citada.
[9]
Pastells. II, 65.
[10]
V. Mapa dás Cortes. Anais da B. N. Doe. sobre o Trat. de 1750. Vol. LII.
[11]
Ânua do Padre Cláudio Ruyer col. B. N. I., 29, 1, 93. Original e autografa
[12]
Inv. e Test. S. Paulo. Vol. XI. 500 a 507.
[13]
Idem, Vol. XIII, 434.
[14]
Carta do capitão Manuel Peres, citada. Ânua do Padre Cláudio Ruyer, em Rev. do
Inst. Hist. e Geogr. do R. G. Sul, XXII, n* 85, p. 39.
[15]
No histórico destes acontecimentos seguimos o relato do P. Ruyer, cartas do P.
Tano e Irmão Simón Méndez e Ânua do P. Lupércio Zurbano, a primeira no original
da B. N. e as outras publicadas in Pastells, II, 60, 65, 81.
[16]
Quem é este capitão Manuel Peres que escreve aos Padres como se fosse cabo
principal da bandeira? Pensa o Dr. Taunay (A grande vida de Fernão Dias Pais —
Anais IV-34) que é Manuel Pires, "cujo nome deve ter o jesuíta estropiado
graças à tendência então geral no tempo, ou universal mesmo, de se verterem os
nomes". Seria, assim, o marido de Maria Bicudo (Geneal. 6M48), pai do P.
Estêvão Rodrigues da Companhia de Jesus, e sogro, pela primeira mulher do
insigne António Raposo Tavares. Entretanto, a assinatura da carta e todas as
referências que se encontram nos documentos jesuíticos refere-se a um Manuel Peres...
Veja ainda a nota 10. na Rev. do Inst. Hist. e Geogr. do R. G. Sul, Ano XXII.
n" 85, p. 40. (L. G. 3.)
[17]
Pastells. II, 60.
[18]
Pastells. II, 65.
Aqui está a narrativa completa e unificada sobre o episódio de Mbororé e
o destino final em Tobati, transformando os registros históricos em uma crônica
épica e solene.
Mbororé e o
Crepúsculo de Tobati: Uma Crônica de Sangue e Selva
I. O Prenúncio da Tempestade
Entre os anos de 1639 e 1641, o tempo pareceu suspender o fôlego nas selvas do Rio Grande. Enquanto António Raposo Tavares voltava sua belicosidade contra os batavos no Nordeste, um novo embate se preparava ao Sul. No Rio de Janeiro, o Padre Diaz Taño proclamava o breve papal que excomungava os captores de indígenas, acendendo a fúria e o distúrbio nas vilas de Piratininga. Sob a ameaça de expulsão dos jesuítas, Taño apressou seu regresso a Buenos Aires para organizar a resistência contra a iminente investida bandeirante.
II. O Exército do Uruguai
Nas reduções, a fé armou-se de ferro. Sob o comando do capitão-general D. Inácio Abiaru, ergueu-se um exército de 4.000 índios, munidos de arcabuzes e uma artilharia rústica feita de bambu e couro. Contra eles, avançava a bandeira de Jerônimo Pedroso de Barros, uma serpente de centenas de canoas que cortava o rio Acarágua com o intuito de capturar almas e buscar vingança contra o poder jesuítico.
III. O Embate das Águas em Mbororé
Em
março de 1641, o Uruguai viu suas águas mudarem de cor. O conflito atingiu seu
ápice em Mbororé, um ponto estratégico onde os jesuítas prepararam sua defesa.
Por oito dias, o rio foi palco de uma dança de morte: balsas blindadas
disparavam contra as canoas bandeirantes, enquanto combates corpo a corpo
tingiam as margens de vermelho.
No
calor da batalha, o capitão Manuel Peres enviou uma missiva aos padres, pedindo
misericórdia e confissão em plena Quaresma, mas alegando que sua consciência
estava limpa perante a guerra que ele dizia não ter buscado. O silêncio dos
padres foi a resposta; a guerra continuaria até o fim.
+3
IV. A Páscoa das Cinzas e os Fortes
de Tobati (Rio Comandai)
O golpe final foi desferido na Quinta-feira Santa. Enquanto os paulistas se ocupavam em erguer cruzes e calvários para as celebrações da Paixão, o exército de Abiaru caiu sobre eles, ignorando a santidade do dia em favor da expulsão definitiva do invasor.
Os sobreviventes, acossados, tentaram uma última cartada. Unindo-se a reforços vindos do Brasil, ergueram dois baluartes de madeira: os fortes de Tobati (Rio Comandai) e Apiterebi. Entretanto, a esperança de fortuna foi breve. Os espias indígenas localizaram as paliçadas e, em ataques sucessivos, os jesuítas e seus catecúmenos destroçaram o primeiro forte e forçaram a evacuação do segundo, recuperando cativos e provisões.
V. O Retorno Trágico
O
que restou da outrora orgulhosa bandeira foi uma marcha fúnebre pela selva.
Perseguidos pelo capitão Abiaru, os paulistas enfrentaram uma natureza
implacável. Cerca de 120 homens brancos pereceram, não apenas pelo ferro, mas
pelo assalto de tigres, pela fome e pelas intempéries do inverno.
Somente em agosto de 1642, os remanescentes atingiram São Paulo. Do sonho de conquista e glória, restou apenas o eco de um Te Deum festivo nas missões e os inventários dos que ficaram para sempre sob o solo do sertão.
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